Sim, é ele mesmo, Axl Rose e o batalhão de músicos que trouxe para junto de si desde o lançamento do disco de covers "The spaghetti incident?", de 1993, e que chama coletivamente de Guns N' Roses, a banda de hard rock que assombrou o mundo com discos como "Appetite for destruction", de 1987, e a dupla "Use your illusion" I e II, de 1991.
Possivelmente o disco mais gravado e regravado da história do rock, e certamente o que gerou mais piadinhas ao longo da década e meia de gestação, "Chinese democracy" existe, e chega às lojas dia 25 de novembro, antes, afinal, de os chineses começarem a eleger seus governantes. A imprensa foi convidada a uma audição das 14 faixas que compõem o disco, em São Paulo, na noite de terça-feira.
Claro que "Chinese democracy" não vale os 15 anos que o mundo esperou por ele. Disco nenhum valeria. Mas, maluquices de Rose à parte, o disco tem qualidades, como uma produção esmerada - em muitos momentos exagerada, com batidas eletrônicas, ruídos e supostos arranjos de cordas desnecessários -, um excelente trabalho de guitarras e a voz do cantor em excelente forma. Se Axl Rose conseguirá cantar ao vivo os agudos que registrou (não se sabe qual o tamanho da ajuda da tecnologia no registro dos vocais) em músicas como "Scraped" e "If the world", só Deus e uma eventual turnê mundial dirão. Mas, no disco, em registros diversos, manda muito bem.
"Chinese democracy" começa com a faixa-título, em que efeitos sonoros diversos são combinados a uma linha de guitarra simples e pesada, além dos guinchos de Rose. Além dos guitarristas que fazem parte do Guns atualmente, Ron Bumblefoot e Richard Fortus, o disco traz o trabalho dos ex-integrantes Buckethead e Robin Finck, a dupla esdrúxula e eficientíssima que veio com a banda ao Rock in Rio 3, em 2001. "Shackler's revenge", a faixa seguinte, é levada por um riff industrial - Rose disse em muitas entrevistas admirar o gênero de rock moderno (em 1995) de bandas como Nine Inch Nails (de onde saiu Finck) - e pela voz processada do cantor. É uma boa canção, que, como a maioria das faixas do disco, ganharia com uma produção mais enxuta. "Better" segue a fórmula da eletrônica com o rock, conseguindo um resultado ainda mais esquisito.
A primeira balada do disco é "Street of dreams", levada no piano (gravado por Rose, apesar da presença, na banda, dos tecladistas Dizzy Reed e Chris Pittman), finalmente uma canção simples, bonita, redonda, na melhor tradição de Rose e sua confessa influência de Elton John. O badalado cheiro de Oriente (ou seria Caribe? África?) que permearia o disco aparece em "If the world", mais uma boa idéia prejudicada por computadores e barulhinhos em excesso (a produção, aliás, é assinada por Rose e Caram Costanzo, que tem bandas como o Pearl Jam e os Stone Temple Pilots no currículo), além da latente falta de sensibilidade de um branquelo nascido no Indiana em 1962 para sonoridades alheias a seu universo roqueiro. "There was a time" é mais uma em que brilham as guitarras, simples, pesadas - as melodias de Slash, antigo parceiro de Rose, nos solos, fazem alguma falta, mas as bases são sólidas como uma muralha --, com uma tensão que remete ao sucesso "November rain".
O pianão reaparece em "Catcher in the rye", misturado a um som de guitarra furioso. No meio da salada, nota-se outra velha influência do Guns, os Beatles, principalmente Paul McCartney, de quem a banda gravou "Live and let die". Mais uma boa canção. "Scraped" é uma das poucas em que a tentativa de Rose de soar "moderno" é bem-sucedida. Ele alterna bem os graves e agudos, no meio de um mar de efeitos sonoros. "Riad N' the bedouins", assim como a já conhecida "Madagascar", volta a terras distantes, nenhuma com resultado a se comemorar. O mesmo não acontece com "Sorry", uma balada mais reta, mas um terreno que o cantor ruivo domina com desenvoltura. "IRS" - com uma letra que une o imposto de renda a um amor malsucedido - e "Prostitute" vão por um lado mais pop, com as tradicionais guitarras pesadas, mas pouco acrescentam. Mais uma balada? Mais uma balada - e elas são a principal força do disco --, "This I love", uma bela melodia angustiada, que mostra que, em algum lugar atrás das tatuagens, das tranças dread e do Botox, ainda vive Axl Rose.
Vale 15 anos de espera? Não. É o novo disco do Guns N' Roses? Mais ou menos. Uma coleção de rocks que vale uma ouvida? Sim, com certeza.
Fonte: http://www.gunnersbrasil.com/arquivo-de-noticias-gunsnroses/43-guns-n-roses/916-oglobo-faz-review-de-chinese-democracy

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